domingo, novembro 13, 2005

imaculada


Todos os dias de manhã, antes mesmo das 6 horas da manhã, tão logo eu abria um de meus olhos e olhava para o teto sujo do quarto, vinha um único pensamento. Eu desejava que ele morresse. Podia ser morte natural, acidental, não importava. Já havia passado pela minha cabeça, pobre cabeça, a idéia de colocar alguma sorte de veneno na sua vitamina matinal. A medida que os dias, semanas, meses se passavam, a vontade de me livrar daquele cadáver pensante se tornava mais e mais real. Já não existia qualquer chance de ter uma vida feliz ali. Duas gerações diferentes, duas maneiras distintas de enxergar a vida e encarar Ela, a morte. Completara 85 anos no domingo passado, domingo frio de verão cujas horas pareciam passar mais lentamente do que anos inteiros, do que todos os seus 365 dias bem contados. E no terceiro andar daquele velho edifício central, de paredes descascadas e um par de sofás puídos e maltratados pelo tempo, apenas eu e ele, o meu avô.
Desde que mamãe morreu, doze anos atrás, seus irmãos se distanciaram da família e coube a este que vos escreve a incumbência de tratar do velhote. À época, ele então com 73 anos, não havia sequer um rastro de que daquele dia em diante sua saúde seria uma íngreme e dolorosa ladeira abaixo.
Apertei forte o cigarro contra os dedos de modo que a fumaça custasse mais pra encher os meus pulmões. Bastava três fortes e longas aspiradas naquele pequeno bastão de papel e tabaco para que tudo se esvaísse em cinzas. Como de praxe, eu preparava o nosso café da manhã. Com a mão direita, visto que o cigarro encarregava-se de ocupar a mão esquerda, eu mexia um par de ovos caipiras para ele. Um punhado de sal a mais nesta frigideira e poderia transformar sua pressão arterial numa bomba de gasolina, pensei. Seria fácil, relativamente rápido e jamais, de modo algum, alguém poderia sequer imaginar de que eu o havia matado. Mas eu era molenga demais pra fazer qualquer coisa dessa natureza. Era meu avô, eu não podia negar. Fato irrefutável. A cada espasmo dos seus lábios contraídos pela dor, a cada coágulo de sangue que ele regurgitava sobre a mesa, eu lembrava dos meus tenros anos. Aos domingos, religiosamente às 10 da manhã, vovô pegava em minha mão e me levava para um passeio no parque. Não lembro detalhes, mas deveria ter por volta dos 5 anos de idade. Vestia sainhas rosadas e azuladas plissadas. Meinhas três quartos, laço no cabelo e sapatilhas negras envernizadas. Tão brilhosas que permitiam ver a ponta do meu nariz reluzir sempre que olhava para baixo. Eu gostava daquilo. Vovô era um homem forte, atraente, e ao seu lado eu me sentia como uma moçoila dez anos mais velha do que minha idade e estupidez real. Comíamos milho verde na banquinha da esquina. Em seguida, devorava com uma fome somaliana o resto do milho do vovô mais um copão de caldo de cana…