terça-feira, novembro 15, 2005

devaneios de uma temporada qualquer

1.
Eles eram pequenos. Deliciosamente pequenos. Levemente escuros. Delicadamente açucarados. Ligeiramente úmidos. Fazia 37 graus. Era verão. Firmes como a Estrela de David no topo de uma árvore de Natal. Os seios de Ana revestiam-se de um número sem-fim de minúsculos pêlos cuidadosamente clareados com cremosa água oxigenada fator 40. Na primeira vez que Theo olhou para os seios de Ana deixou escapar uma discreta cara de espanto. Encolheu levemente suas sobrancelhas e as bochechas sofreram uma contração involuntária. Mas era um espanto positivo. Cabiam-lhe nas mãos como uma estrela do mar. E a barba mal feita de Theo fazia cócegas em Ana assim como fazem os pêlos das estrelas do mar na palma das mãos. Eles gostavam daquilo. Ele gostava dela. Gostava do cheiro e do gosto do corpo e da saliva de Ana.
Foi um encontro casual. A primeira vez, digo. Um dia modorrento daqueles que nem merecia nascer. Mas se está aqui, nessa vida, também para encarar os dias modorrentos. Theo e Ana se conheceram de modo singular. Foram informalmente apresentados numa festa qualquer. Uma dessas festas promovidas por empresas, onde bebe-se muito, fala-se pouco e volta-se pra casa sem nada interessante — nem cabeça nem no banco de trás de uma velha Belina 83. Pessoas que freqüentam esse tipo de evento não valem lá muita coisa — matutava Theo. Pertencem ao segundo ou terceiro time da evolução humana. Mas ela parecia diferente. De fato ela era. Para ele, ao menos.
Almoçaram juntos alguns dias depois. Comida vegetariana indiana. Um restaurantezinho típico de cidade grande. De megalópole. O preparo e sabor das receitas são exatamente idênticos nessas bibocas. Não importa se se está em São Paulo, em Nova York, em Tóquio ou em Melbourne. E não pense que Paris ou Cochabamba é diferente. A comida é a mesma em Anchorage ou no Cairo. Você sabe do que estou falando.
Trocaram e-mails sem importância. E os meses passaram. Três pares deles se foram até o novo encontro acontecer. Aconteceu. As coisas acontecem. Simplesmente acontecem — acreditava Theo. Na verdade ele não acreditava muito nessa teoria. Mas esforçava-se. Seu esforço era efetivo, claro. Queria mesmo poder crer que as coisas, mais dias menos dias, simplesmente aconteciam.

2.
Desde o começo Ana deixou claro: abominava qualquer tipo de relacionamento. Namoro era uma palavra proibida em seu vocabulário. Vinte e poucos anos, bom emprego, morava sozinha. Curtia a vida. Fazia parte do que os jovens convencionaram chamar de "grupo de apoio". Ana tinha um grupo de apoio. Um seleto time de amigos sempre disposto a ajudá-la: na casa, no trabalho, na cama e onde mais precisasse. Não queria mudar. É bem verdade que Theo também vivia às voltas com uma série de garotas.
Cada mulher respondia a um papel importante na vida de Theo. Colocadas isoladamente de nada serviam. O que valia era o conjunto. Assim como o escrete canarinho na Copa do México de 1970. O que seria daquele genial drible de Pelé sobre o goleiro uruguaio Mazurkiewicz na semi-final se não fosse o toque certeiro de Tostão? Você lembra dessa jogada, não lembra? Não? Pensa melhor. Ah, tudo bem, isso não importa. Serviu para ilustrar a narrativa. Dá um certo charme ao texto. Bem, voltando. Assim funcionavam os romances de Theo. Uma mulher dependia, essencialmente, da outra.
Mesmo com seus seios exageradamente diminutos, seu nariz adunco e uma veia que insistia em saltar da testa a cada gargalhada, Ana era perfeita. Para Theo, ao menos. Não só para ele, descobrira com o tempo. Theo já havia escutado histórias de homens que passaram anos sofrendo pelo amor não correspondido de Ana. Garotos que afirmavam, convictos, que ela era a mulher de sua vida. Mas jamais encontrou um exemplar, sequer um, que teve a fleuma de desdenhar o coração da moça.
Theo media 1,75 metro mas se considerava baixinho. Pesava 65 quilos e se achava gordo. Tinha os cabelos levemente encrespados. Queria tê-los lisos, bem lisos, para poder pentear para cima, para baixo e para os lados. E um pouco para frente também. Gostava dos anúncios da Gucci, da Prada e da Guess nos quais os modelos tinham cabelos bem lisinhos. Nos quais (provavelmente) os penteavam pra cima, e para baixo e para os lados e para a frente sem problemas.
Encontrou em Ana o equilíbrio ideal para suas fragilidades. Era o que ele achava. Que ilusão, Theo. Até parece uma criança — repetia para si mesmo, toda vez que passava em frente a algum espelho. A insegurança diante de questionamentos tão insignificantes serviam para se prender a alguém que, a cada dia, explicitava sua absoluta independência. Diante dos fatos, não raro Theo se enfurnava em casa e recusava viagens à praia, almoços em família e festocas com os amigos. Theo também morava sozinho. Theo também tinha independência e um trabalho relativamente importante. Mas preferia ficar consigo mesmo. Costumava dizer que as melhores viagens são as feitas para dentro de si mesmo. Aprendeu a frase com o amigo Tito, um nômade vinte e poucos anos mais velho, que trocava e-mails com ele mas nunca havia conhecido pessoalmente. Estranho esse mundo, não acha?

3.
Terça-feira. Noite. Theo entorna seu quinto mojito. Quantidade suficiente para aplacar a dor e mandar os problemas para longe da mesa do bar. Embriagar-se com os amigos havia se tornado uma espécie de esporte. Diversão e tanto. Não chegava a ser uma irresponsabilidade. Nem mesmo uma fuga. Simplesmente Theo gostava de encher a cara. Pelo simples prazer de estar com os amigos, cantar as meninas que quisesse e passar a noite com aquela que bem entendesse. Ele gostava da sensação. Gostava de perder o controle, ainda que achasse que, de fato, nunca o teria. Rir intensamente. Nesse ponto, considerava todas elas lindas e meigas e cheirosas e inteligentes. As mulheres de sua vida. Sabia que não eram nada disso, é claro. Mas deixemos ele. Tinha prazer em fantasiar, enganar a si mesmo. E com seu papo tão cafajeste e motejante em minutos estava comendo alguma delas no banheiro do bar, no penumbra da pista de dança ou na sala da sua casa.
Não considerava o quarto um lugar ideal. Essa afirmação carregava nas entrelinhas uma boa dose de pudor. Mas ele não confessa. Nunca confessou. Quanta inocência. Quanta hipocrisia. Afinal, na maioria das vezes, mal lembrava o nome da moça. Como poderia, então, levá-la para cama? Para dentro do seu quarto, aquele templo sagrado? Preferia currá-la no tapete da sala. Sobre o sofá. Apoiada na pia de mármore escuro da cozinha. Ou na varanda de seu apartamento, em noite estrelada e clima morno.
continua...

antes do jantar

Baixou o elástico da puída calça de moletom cinza. As pernas tremeram. Olhou para baixo, de soslaio, e respirou aliviado. Seu pinto ainda estava lá. Com calma e zelo, pressionou levemente o prepúcio e puxou-o em direção ao próprio corpo. Ardia um bocado. Um líquido transparente, espesso e gosmento lhe causou certo espanto. Um forte odor subiu-lhe às narinas. Resolveu se lavar.

William e Fátima anunciavam as últimas do governo e a derrota da seleção quando os pais de Max chegaram em casa. Um beijinho na mãe. Um beijinho no pai. E vruuuummm para o quarto. O pau ainda queimava. Segundo banho do dia.

— Filhoooo, olha a janta — gritou a mãe da cozinha.

— Jantar, mãe, é jantar, e não janta — corrigiu.

Guisado. Coca-cola. Guisado. Arroz. Coca-cola. Polenta. Blurp.

— Come devagar, seu idiota — irritou-se o pai.

Ao lado da cozinha, num cubículo, sobre um beliche cor-de-rosa, Mirleide suspirava com os românticos e açucarados contos da coleção Sabrina.

— Pode tirar a mesa — ordenou a mãe.

Mirleide tinha 18 anos. Trabalhava na casa de Max desde os 15 e perdera a virgindade naquela tarde. Max tinha 42. E síndrome de Down.

0h30

Estou procurando no Google o sentido da vida.
Alguém sabe?